De volta pro futuro

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Um dos temas da blogagem coletiva de março do Rotaroots (Sugestão da Paloma, inspirada pela TAG no blog Hypeness) era escrever uma carta pro seu eu de dez anos atrás. Logo decidi que não iria participar porque achei que o tema era uma porta aberta pra chororôs sobre traumas e desilusões, coisa que eu realmente não preciso.

Mas aí comecei a pensar sobre quem eu sou hoje e quem eu era há dez anos e, bem, me dei conta de que não mudei tanto assim.

Se eu escrevesse uma carta para a Ana de dez anos atrás, ficaria tentada a avisá-la sobre coisas que ainda estariam por acontecer, dar concelhos a ela sobre o que fazer, pra não dizer, efetivamente dizer a ela o que fazer. Contudo, se eu aprendi algo com os filmes de ficção científica é que tentar alterar o passado pode ter consequências catastróficas para o fluxo do tempo-espaço (valeu, Dr. Brown), ou, numa perspectiva um tanto mais otimista, realizar certas mudanças desejáveis no passado pode causar certas mudanças indesejadas também. Sinceramente, essa ideia não me agrada, porque, sendo completamente sincera e modesta, gosto da pessoa que eu sou, e não gostaria de mudar.

Isso porque a mini-eu, até 19/03/2004, já teria passado por algumas das experiências que mais “potencializaram” características da pessoa que eu iria me tornar. Pelo que li certa vez, a personalidade de uma pessoa se molda até mais ou menos os oito anos. As experiências pelas quais ela passa, até essa determinada idade, são cruciais pra formação do seu caráter. A partir dali ela já seria mais ou menos aquilo que vai ser pelo resto da vida. Acho que isso deve ser verdade em parte, mas não tiro o mérito da mini-eu. Se ela era independente em potência, foi depois dos eventos que se desenrolaram até mais ou menos essa época, dez anos atrás, que ela definitivamente se tornou uma pessoa mais independente e mais forte. Ela passou por coisas que nenhuma criança deveria ser obrigada a passar, o que a fortaleceu, fez o couro dela engrossar mais rápido e se hoje eu sou a pessoa forte e madura que sou, é porque aquela menininha de quase 12 anos foi capaz de aguentar a barra de ter a vidinha dela virada do avesso. A mini-eu de 11 anos era meio mimada e pseudo soberana de si, mas chegou aos 12 anos com um senso de independência, cuidado pelo próximo e uma solidariedade familiar pelas quais eu me orgulho muito.

Não se deixe enganar achando que estou muito satisfeita comigo mesma. As if. Teria sido bom ser mais magrinha, mais auto confiante, mais “popular” na adolescência. Na verdade, seria ótimo ter um pouco (muito!) mais de auto-confiança e auto-estima agora, e se eu não tenho, tenho a nítida sensação que a culpa também está nos acontecimentos do passado. Mas se as experiências moldam quem somos, meu passado fez de mim quem sou hoje, então não arrisco muda-lo, por que continuo caminhando. Um dia eu chego “lá”.

Se fosse possível que eu dissesse algumas palavras pra mini-eu de dez anos atrás sem causar uma ruptura no tempo-espaço, eu arriscaria diria algo como: “Estou orgulhosa do que conseguimos até agora. Agora vamos em frente”.

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